Christina Barbosa, PhD, PMP

 

Em 2025, a COP30 chega à Amazônia. Não a Amazônia de slides coloridos, slogans vazios e promessas genéricas. A Amazônia real! Aquela onde convivem riqueza natural, pobreza extrema, inovação, conflitos, povos tradicionais, mineração, biodiversidade, bioeconomia e um mosaico de interesses que raramente cabem na mesma mesa.

E é exatamente por isso que a COP30 tem que ser diferente.

Chega de encontros onde líderes “reafirmam compromissos” enquanto indicadores climáticos gritam o contrário. Chega de narrativas que colocam a sustentabilidade como um adereço reputacional. Já passou da hora do assunto ser tratado como estratégia econômica central.

A COP30 precisa marcar a virada. E aqui estão, sem filtros, as metas que espero ver encaminhadas. E, lógico, cobradas!


1. Planos climáticos atualizados que finalmente conversem com a realidade

A NDC brasileira e as de muitos países ainda vivem no mundo da fantasia. Na COP30, não dá para aceitar modelos climáticos que ignoram o aumento real de emissões, a expansão de combustíveis fósseis ou metas “dependentes de verbos no gerúndio”.

Quero ver:

  • Compromissos mensuráveis, verificáveis e auditáveis (sem o termo “intenção de reduzir”).
  • Governança climática com métricas claras de responsabilização.
  • E, principalmente, cronogramas que não dependam de milagres tecnológicos.

2. Financiamento climático que saia da promessa para o balanço

Não existe transição sem dinheiro. Ponto.

A meta dos US$ 100 bilhões anuais, prometida há mais de uma década, virou piada. Para a COP30, a cobrança deve ser objetiva:

  • Escalonar o financiamento climático para trilhões, não bilhões.
  • Criar instrumentos acessíveis para países em desenvolvimento (sem a burocracia que inviabiliza o acesso).
  • Remunerar países que preservam florestas, e não apenas os que poluem.

A Amazônia vale muito mais do que discursos emocionados.


3. Amazônia como protagonista econômico e não peça de decoração diplomática

A COP na Amazônia não pode virar cenário de fundo para fotos oficiais.

Minha expectativa? Que a COP30 apresente modelos econômicos reais para a região:

  • Escalar bioindústrias.
  • Acelerar hubs de inovação sustentável.
  • Integrar pesquisa científica aos negócios sustentáveis.
  • Fortalecer cadeias produtivas sustentáveis.
  • Colocar populações locais no centro da decisão e não como figurantes.

Sem isso, continuaremos romantizando a floresta enquanto empurramos sua população para atividades de subsistência e ilegalidade.


4. Transição energética sem maquiagem

Transição energética não é trocar termo “combustível fóssil” por um outro diferente.

Espero ver discussões maduras sobre:

  • Futuro do gás natural.
  • Papel real do carvão na matriz global.
  • Escalabilidade das renováveis.
  • Hidrogênio (verde de verdade, não verde de marketing).
  • Investimentos massivos em eficiência energética , o “primo esquecido” da mitigação.

A COP30 precisa deixar claro que transição não combina com ambiguidade.


5. Adaptação e resiliência tratando as pessoas como prioridade

Eventos climáticos extremos já não são tendência, são REALIDADE. Cidades, empresas, infraestrutura e sistemas de saúde não estão preparados.

Quero ver:

  • Planos robustos de adaptação e regeneração para regiões vulneráveis.
  • Integração urgente de mudanças climáticas no planejamento urbano.
  • Sistemas de alerta e resposta rápida.
  • Ffinanciamento dedicado para proteger vidas, não apenas ativos.

Mitigação é essencial. Mas sem adaptação e regeneração, continuamos repetindo o erro básico: ignorar o impacto humano.


6. Empresas assumindo seu papel — sem esperar por regulação

O setor privado precisa parar de agir como espectador da COP.

Na COP30, espero:

  • Estratégias climáticas alinhadas ao IFRS S1/S2 e ESRS.
  • Métricas claras e quantificáveis de impactos e riscos (ameaças e oportunidades).
  • Inventários robustos (inclusive Escopo 3).
  • Metas baseadas em ciência.
  • Capacidade de execução e não relatórios “para inglês ver”.

A transição climática vai separar as empresas que gerenciam das que improvisam.


A verdade é simples: a COP30 será histórica se formos capazes de exigir mais

Mais transparência. Mais ambição. Mais coragem para enfrentar interesses instalados. Menos narrativa vazia.

A COP30 é no Brasil, mas o que acontecer aqui repercutirá no mundo inteiro. E, como profissional que vive a sustentabilidade de forma estratégica (não romântica), estarei observando cada passo: o discurso, a execução e, principalmente, os resultados.

Se é para fazer história, que seja com consistência.